
Na metade do século XX, quando a rua Nova ainda era a rua mais badalada da cidade de Recife, começou-se a falar sobre a Sociedade dos Quatro. Organização criminosa que no inicio somente agia no bairro da Boa Vista.
Cobrava um imposto a esmola, cada mendigo devia entregar uma parcela do arrecadado diariamente, sob pena de ser barbaramente castigado.
A primeira vítima foi Jaime, um pedinte da rua Imperatriz que apareceu afogado numa lixeira por se recusar a colaborar com a organização. O ceguinho do acordeão, fazendo jus a sua teimosia, não concordou com as imposições da “sociedade”, mudou de ponto e foi pedir esmola numa igreja da rua Imperador. Meses depois foi encontrado pendurado nas grades do átrio, enforcado com uma corda.
Passado o tempo a Sociedade cresceu a tal ponto que chegou a ter “cobradores” e “gerentes”, ex-mendigos que controlavam a circulação do dinheiro derivado do imposto a esmola e do já incipiente tráfico de drogas.
Todas as bancas do jogo do bicho estavam sob comando da Sociedade dos Quatro, assim como também os prostíbulos, vários cassinos e as corridas de cavalos.
Extorquiam e corrompiam delegados, juizes e promotores, atuavam com total impunidade e reinavam no submundo do crime.
De um dia para outro a Sociedade dos Quatro acabou, assim, nem mais nem menos, da noite para o dia, num piscar de olho...
No Bar Savoy, onde anos depois o poeta Carlos Pena Filho prestigiaria suas mesas, o sargento aposentado Waldemar Ferreira, comentou para os mais íntimos que os criminosos acharam uma atividade muito mais rentável: a política.
A PORTA ERRADAGeraldo Costa apertou a última porca, lavou as mãos na pia melada de óleo da oficina, bateu o ponto, pegou o ônibus sentido Cidade e dirigiu-se a sua casa.
Quando abriu a porta, em vez da pequena sala com televisor preto e branco sobre o estante, o sofá cor marrão, a mesa redonda com toalha de renda branca e o quadro de São Jorge pregado na parede, encontrou uma imensa planície cinzenta, agreste e vulcânica.
Surpreso primeiro e apavorado depois, tentou voltar, mas não encontrou a porta de saída. Pensou que estava louco, que era um sonho, uma alucinação. Pensou, pensou...porém não...
Sentou-se sobre uma pedra com as mãos na cabeça, enquanto aves pré-históricas sobrevoavam como urubus famintos sua figura diminuta. Estava frio e o sol começou a cair detrás das montanhas.
Não pode ser, não é verdade!, moro no bairro da Boa Vista, estava trabalhando, depois peguei o ônibus, minha casa fica na rua da Gloria...Que faço no meio deste deserto...? meu Deus, onde estou? Que pesadelo horrível!
A mulher de Geraldo, que em sonhos escutava noite trás noite os gritos desesperados de seu marido, fez a denuncia do desaparecimento na delegacia da rua do Rosário.
Para o Delegado Eduardo Porto, tudo é um grande mistério, mas, os vizinhos que habitam os redores do mercado de Santa Cruz, sabem perfeitamente que Geraldo Costa entrou pela porta errada.
O BOLO QUE DEU BOLO 
Os bolos e os doces mais gostosos nasciam das mãos de Maria Torta, em cuja cozinha excepcional o coco, o chocolate, o mamão e o caju, eram convertidos em mágicos manjares capazes de ressuscitar o paladar das tias mais velhas, além de causar inveja aos melhores pasteleiros das casas especializadas. Não havia outra em todo o bairro com tanto brilho e poder.
A fama extrapolou as fronteiras da Boa Vista. O Gerente do banco do Brasil, só iniciava o expediente após saborear um pedaço do bolo de Maria. Os comerciantes dos bairros de Santo Antônio e de Recife antigo, encomendavam tortas para o lanche das cinco da tarde. Figuras ilustres da sociedade pernambucana se deleitavam com os quitutes de Maria Torta, o Arcebispo Emérito de Recife e Olinda, o dono do periódico “O Relâmpago”, o arquiteto Alfredo Coimbra, Dona Margarida Besouro, o conhecido ilustrador Herculano Alburquerque...
O delegado Albino Castor, pagava em dobro pelas receitas, e Maria Torta, esperta, sempre esquecia algum dado culinário, o que fazia fracassar os bolos de sua mulher Dona Gilda Alves Castor.
Os fracassos se estenderam à úlcera do delegado que não o fazia sofrer tanto como a noticia que recebeu como uma punhalada no fígado: os presos haviam fugido do em massa, não ficou um sequer. Tudo durante a noite. Renderam os guardas e enfumaçaram na escuridão.
Quando a policia prendera semanas atrás um grupo de camponeses que conspiravam contra os maus tratos de Aderico Pessoa, famoso e poderoso senhor de engenho, ninguém dera conta de que Zé da Luz, era o irmão caçula de Maria Torta. Foram vários dias no pau-de-arara e varias semanas barbaramente castigado. Era punição exemplar para que ninguém ousasse discutir a autoridade dos coronéis de engenhos.
“Fuga espetacular” noticiavam os jornais da oposição.
“ Criminosos de alta periculosidade cerram as grades e fogem da cadeia” bramavam os matutinos oficiais.
Mais ninguém sequer suspeitou que, dentro de um gostoso bolo de abacaxi, naquela tarde, entrara a liberdade.
MADEMOISELLE APARECIDA

Perdido entre ponteiros, segundos, engrenagens e sinos de relógios antigos, a figura curvada de seu Matias se escurecia no pequeno bequinho da rua Velha, entre a barbearia de seu André e o cortiço de Dona Laura.
Contam que seu Matias era tão antigo quanto o relógio da Igreja Matriz, roubado, um ano depois da guerra dos mascates, por um conde italiano. Jamais ele teria lugar nas lendas do bairro da Boa Vista, se não fosse por sua curiosa historia com Mademoiselle Aparecida, filha do comerciante Manoel Laureano e da professora de língua francesa, madame Edith.
Mademoiselle Aparecida era rigorosamente branca, miúda tímida e cândida. Um relógio herdado de seu bisavó, que por sua vez, havia recebido de um dos seus ancestrais, o Barão de Portiers, levou-a conhecer seu Matias.
A peça era de ouro branco com finos detalhes e marcada aristocracia. Não obstante o pequeno relógio redondo tinha um estranho embruxo. Segundo a lenda, ele não poderia parar de funcionar, pois, automaticamente, pararia o coração de seu dono.
Era tradição, por gerações, revisar o relógio de tempo em tempo para evitar surpresas desagradáveis. Mademoiselle Aparecida aguardou paciente que seu Matias acabasse de revisar a jóia. Mas, quando ele terminou, ficou surpreendida ao ouvi-lo dizer que o relógio deveria ficar, pois tinha um pequeno defeito. Ela voltaria para apanhar na segunda feira. Seu Matias aproveitaria o feriado da Semana Santa para consertá-lo.
Na Sexta Feira da Paixão, as seis da noite, o relojoeiro do beco da Rua Velha, que havia ligado o radio e trancado a porta, sentiu uma profunda dor no peito, levou as mãos a garganta trilhada por profundas veias grosas e azuis e se afogou na solidão da oficina. O relógio rodou pelo seu colo e se deteve num canto da parede.
No Domingo de Gloria, o coração de Mademoiselle Aparecida parou de bater.
A MALDIÇÃO PERFEITA
As borboletas eram a única paisagem antes de chegar a beira do rio Capibaribe. Do outro lado, percebia-se nitidamente os muros tenebrosos da prisão.
O bairro de Boa vista foi crescendo quase sem compromisso como esperando que algo fosse acontecer...
Muitos anos mais tarde um homem sempre vestido de negro filosofaria em cada uma de suas esquinas.
Ivo havia nascido uma noite de lua cheia, grande e amarela. Uma conjunção de astros e de estrelas descarregou toda sua energia naquele menino que teria sobre si a responsabilidade dos mistérios da vida.
Os mais velhos contam que houve na época do florescimento da tecnologia e do surgimento da televisão reuniões memoráveis, onde Ivo sempre se destacou por sua capacidade de síntese. Há quem lembre, naquelas noites antológicas de João, o poeta da Rua Velha; Edivaldo, o inventor; Aristóteles, um padre católico que depois esteve em Pueblas na época de Paulo VI.
Os incendiados discursos eram sobre o terrível mal que estava trazendo a televisão e, contraditoriamente, a falta de comunicação que produzia entre os seres humanos. Ivo fazia tempo que havia percebido a decadência do bairro, que décadas atrás conviveu em harmonia com a natureza. A maioria das pessoas haviam perdido sua identidade, e muitas se encarnavam nos personagem das novelas que a televisão programava. Nas esquinas do bairro da Boa Vista, amontoavam-se como sucatas a total falta de idéias.
O filosofo começou a elabora um tratado sobre o mal do século, onde certamente a AIDS é uma simples catapora em comparação com a “Maldição Perfeita”, como Ivo chamava a televisão. Consumia noites elaborando e corrigindo os manuscritos, que antecipadamente havia sido solicitado por Maria de Lourdes Santos de Lima, para realizar sua teses monográfica na Universidade Federal de Pernambuco.
O tratado ficou inconcluso.
Uma noite de tormenta, de chuva e de relâmpagos, quando atravessava uma das esquinas da rua da Saudade, uma antena de televisão caiu sobre sua cabeça e quebrou-lhe o pescoço
O PACTO DOS POETAS
Naquela época os poetas do bairro da Boa Vista se encontravam no Bar de Chico, perto do pátio de Santa Cruz. Entravam na noite discutindo Camões e recitando Augusto dos Anjos. Os mais velhos lembram Álvaro Felipe, poeta que imortalizou a rua da Soledade com estes versos: Rua da Soledade / Paisagem de casarão / onde o século deixou / a cor de sua digital / rua da Soledade / saudade e solidão.
Lá Durval Elias preparava as matérias para a “Folha Crítica e Literária” , um jornal alternativo fundado por Joaquim Ribeiro, que era impresso por Francisco da Cruz.
A Folha pretendia “rasgar o tumor inchado da hipocrisia” e os bates entrincheirados no bar de Chico esperavam ansiosos cada número.
Entre os poetas se destacava a figura silenciosa de Amaro Landim, escritor e jornalista que estimava os grandes sistemas simbólicos e estilizava sua linguagem nos cânones das mais pura tradição. Havia publicado “O Amor e o Cântaro” um livro, que segundo os críticos literários, “denunciava com a bela arte da poesia a cruel industria da destruição da humanidade”.
“Um livro que anunciava a era do átomo e dos mistérios estelares, a luz apagada da consciência do mundo, o caos e o fogo nuclear” Um livro alucinante, “onde o amor e a esperança perdida agonizavam numa cósmica marcha para o nada”.
Na primeira semana de um ano bissexto, Amaro landim teve uma premonição. Reuniu Landelino Barbosa, Leovigildo Ribeiro, Celso Uchôa e Alvaro Felipe, entre outros, e fez com eles um pacto secreto.
Não há registro do acontecido naquela noite no Bar de Chico. Nenhuma palavra, nenhum escrito, nada que possa reconstruir o pacto dos poetas.
Muito se falou e se especulou nos meios literário sobre o mistério daquela noite que perturbo sonos e consciências.
Mesmo 63 anos depois do pacto, em seu leito de morte, o poeta Leovigildo Ribeiro negou-se a revelar o segredo.
Ninguém sabe até hoje, porque Amaro Landim decidiu mutilar o próprio corpo, arrancando seus olhos com um garfo.
ALCIDES, O PISTOLEIRO DE ALUGUEL
Quando percebeu que ela cruzava a calçada, rapidamente chegou-se a seu lado, abaixou a aba do chapéu e perguntou:
- Rosa?
- Pois não?
- E a fuzilou com dois tiros na cabeça.
Perdeu-se na primeira esquina de uma travessa da rua Velha.
À tarde, fechou os olhos e se deixou dormir no regaço da noite...Escondido no quarto de uma pensão da rua Floriano Peixoto perto da estação, Alcides olhava o relógio esperando a hora de saída do trem para a Cidade do Cabo, no litoral sul de Pernambuco.
De repente, sentiu que o cimento do chão começou a rachar e, apavorado, viu como uma árvore crescia com violência esmagando a cama contra a parede. O espinho de um galho atravessou-lhe a garganta e o pregou com fúria contra o guarda-roupa.
Um pimpollho de rosa ajardinou a janela e pingou orvalhos de sangue sobre a multidão nervosa que aguardava em silêncio...
A GUERRA DA BOA VISTA
A história da guerra urbana desenvolvida no bairro da Boa Vista, no começo da década de 30, realmente é desconhecida pela maioria da população, pois não há registro nem referência sobre a “saga dos sertanejos” que se envolveram num banho de sangue pela subsistência diária e o direito ao trabalho.
Os jornalistas, pressionados por questões políticas, preferiam tratar o caso com briga entre bandos marginais pelo controle da prostituição e do jogo.
Inconfessáveis interesses econômicos mantiveram, no mais absoluto silêncio, uma verdadeira discriminação fratricida.
Passo a transcrever trechos de um diário manuscrito achado num belo e velho casarão da Rua do Progresso, no bairro da Boa Vista, na pernambucana cidade de Recife, onde morou a filha caçula de Benjamim Duarte, conhecido na época pelo codinome de “Capitão Coragem”.
23 DE MARÇO
Começamos a nos dar conta de que alguma coisa estava errada quando mataram Pedro dos Tijolos e deixaram a mensagem.
Segunda-feira passada foi à vez de Zezinho do Brejo, e a mesma mensagem. Quarta-feira, Lucas e quatro mais que não conhecia vieram ver-me. Eles foram claros: “É preciso resistir”. Programarei uma reunião com mais gente para amanhã.
25 DE MARÇO
Éramos doze no total, a maioria parentes de companheiros mortos.
Ninguém tinha certeza de nada, o único certo eram os assassinatos.
Quem patrocinava, quem financiava, quem programava toda essa loucura era um mistério. Só tínhamos uma convicção: as matanças eram para intimidar e fazer-nos voltar para o interior. Alguém estava interessado em não permitir a chegada dos sertanejos ao bairro e matavam aqueles que conseguiam trabalho. O primeiro passo era fazer um levantamento da gente que chegou do interior no último ano, fazer vigilância e defender-nos. Era a única coisa que podíamos fazer, pois não conhecíamos ao inimigo, conseqüentemente não sabíamos onde e como atacar.
3 DE ABRIL
Tentaram matar Zulema na Rua Cais Mariano. O Comando denominado “Pedro dos Tijolos” logrou defende-la e salvar a vida. A pobre ficou muita ferida no rosto. Há outros comandos dispersos pelos mangues e beira rio. No total devemos ser uns 25 companheiros.
15 DE ABRIL
Passamos 10 dias sem novidades, o sistema de segurança está funcionando, ontem se incorporaram quatro homens que chegaram no mês passado de Serra Talhada.
Estamos crescendo, já há alguma suspeita de onde vem os ataques.
23 DE ABRIL
Realmente nos descuidamos, pensamos que tínhamos a situação controlada, e esse relaxamento nos custou à vida de Maria do Carmo, Ceça e Toninha, assassinadas no beco, quando ian para o trabalho, perto da fábrica têxtil. Foi uma merda, a família de Maria do Carmo voltou todinha para Ouricuri.
5 DE MAIO
Recebemos informação que num barraco da Rua da Saudade, bem antes do cemitério de Santo Amaro, reunia-se o inimigo para planejar tocaias.
Zé da Caatinga pediu para assumir a responsabilidade e atacar com seu comando, Lourenço Cantador achava que devíamos ter maior paciência, fazer um planejamento adequado a geografia do lugar e ter mais segurança.
Por cinco votos contra três, venceu a proposta de Zé.
11 DE MAIO
Só voltou Helena e um cabra conhecido como Souto. Eles eram cinco, depois apareceram mais. O combate durou meia hora, a mulher matou dois a cacetadas. Souto disse que eles atiraram com armas de grosso calibre...Como as que usa a policia ou exercito...
O Diário de Pernambuco noticiou: “Briga entre quadrilhas: 17 mortos”.
23 DE MAIO
Mataram seu Luiz, de madrugada, quando ia trabalhar. O comando chegou tarde, mesmo assim conseguiram ferir um homem que participou do assassinato. Está preso num esconderijo perto do rio Capibaribe. Amanhã iremos interroga-lo.
24 DE MAIO
O cara, ferido na coxa, teve hemorragia durante a noite. Morreu de madrugada sem falar. Atiramo-lo no rio.
(As páginas seguintes estão ilegíveis, pois foram escritas com lápis grafite, e o tempo e a umidade dificultam totalmente a leitura ).
Recomeço a transcrever no dia 3 DE SETEMBRO
Fernando fez um bom trabalho.
O jornalista novato do Diário de Pernambuco trouxe mais informações.
8 DE SETEMBRO
Depois do desfile tentaram incendiar a casa de Ivanildo, foram recebidos a tiros de espingarda.O inimigo está desesperado, já começaram a cometer erros primários.
17 DE SETEMBRO
Há rumores de uma grande reunião. O doutor Ademar Campos parece não querer seguir financiando as operações. Comentou para seus aliados que há interesses políticos que se contadicem...
20 DE SETEMBRO
Tudo está sob controle. Somente esperamos saber o dia da reunião.
Os comandos estão ansiosos, esperando para o ataque final.
9 DE OUTUBRO
Nada importante. Em 30 de setembro matamos um fulano de tal, que atendia pelo codinome de Pezão, foi reconhecido na rua pela irmã de Toninha como o assassino da Ceça.
17 DE OUTUBRO
O jornalista do Diário que acompanha os acontecimentos e que de alguma maneira esta infiltrado na outra parte, afirmou que a reunião será em novembro. Todo mundo ficou chateado. A indecisão deles nos faz ficar nervosos.
19 DE OUTUBRO
Num bar perto do mangue foi reconhecido um cara que participou do assassinato de João do Forno. Pegamo-lo vivo. Não quer falar, está sem beber e sem comer.
23 DE OUTUBRO
O cara disse que se chama Leogisto, não sabe nada. Entrou de gaiato. Ordenei fuzila-lo.
25 de OUTUBRO
A reunião foi adiada para dezembro. Estão tentando encontrar apoio político. Um Coronel do exercito participa das negociações.
27 DE OUTUBRO
Diante das novas circunstâncias, o comando geral decidiu enviar-me para Rio de Janeiro. O contato é um ex-deputado do Estado de Guanabara.
( o resto das folhas do diário foram atingidas pelos anos e pela umidade, estão totalmente ilegíveis. Anexada com um grampo, há uma carta que o Capitão Coragem escreveu para sua filha Rosanita Duarte).
Querida filha:
Espero que, ao receber a presente, sua saúde esteja restabelecida. Pode ser demais dizer, mas você sabe que não sou um bandido, como não foi Pedro dos Tijolos, nem Zezinho do Brejo, nem Zé da Caatinga...
( ilegível )... Custou o sangue de 43 sertanejos e mais um ano de luta... ( ilegível )... A política é complexa... ( ilegível )... Conquistamos o direito de morar e trabalhar no bairro, porém, sinceramente estou triste, não é minha terra, como não é a sua. Nada devemos a ninguém... ( ilegível )... Eu sei quando você compreende e quanto é sua dor agora. Mas nada podemos fazer. Há gente muito importante que lucra com a fome... ( ilegível )... Estou enviando o diário de guerra dos 500 dias, a “saga dos sertanejos” como noticiou um jornalista de São Paulo e foi preso.
Espero que também receba a aliança que foi de sua mãe... ( ilegível )...
O SEBO DE ISAIAS
O primeiro sebo que se recorda no bairro da Boa Vista foi o de Isaías. Por lá passaram figuras ilustres da sociedade pernambucana. Milhares de manuscritos trazidos da Europa estavam cuidadosamente selecionados. Livros que vinham dos confins da Ásia e nove dos tratados elaborados em Charcas e Chuquisaca.
O sebo de Isaías era curiosamente completo em matéria de originalidade. O poeta Pedro Monteiro Lopes, costuma meditar frente a seus estantes seculares de historia universal.
O doutor Cândido Campelo Lacerda, em reuniões diárias, defendia suas idéias monárquicas e batia duro naqueles que se sentiam atraídos pelos ideais da revolução Francesa.
Por lá passaram o filólogo Alexandre Maciel, os jornalistas Olávio Oliveira, José Maria Otoni, Tiago da Fonseca Jr. e tantos outros que prestigiaram com sua sabedoria, com sua ciência e com seu lirismo o sebo de Isaías.
Entretanto havia rumores que coisas estranhas e esquisitas aconteciam depois da meia-noite. Os mais ousados diziam que personagens saídos dos livros e manuscritos percorriam a beira do rio Capibaribe, nos dias de quarto crescente. Marinheiros da expedição de Marco Polo Foram avistados quando caminhavam pelo cais. João Calvino foi reconhecido perto da rua Velha e se diz que um centurião do César estuprou uma escrava de nome “Bia de seu Biu”.
“Coisas desse povo ignorante”, comentava o Dr. Cândido Campelo, “desses liberais ateus, filhos do demônio, de idéias republicanas, francesas e afeminadas”.
O Dr. Cândido Campelo Lacerda, de seu pedestal monárquico, ironizava quem ousasse sequer insinuar a peregrinação dos personagens nas ruas da Boa Vista.
Na última Sexta feira daquele mês de maio, passada a meia- noite, o tumulto foi grande. O próprio Isaías encontrou o corpo ensangüentado do Dr. Cândido. Haviam tentado corta-lhe o pescoço, a ferida era profunda, o sangue entupia a boca e cobria seus olhos desorbitados.
- Foi Robespierre, foi Robespierre, disse o Dr. Cândido, e morreu como rosto incrédulo.
REQUIEM PARA O BOA VISTA FOOT BALL CLUB
Os irmãos Cartiers, imigrantes europeus nascidos na Inglaterra, fundaram no Recife no inicio do século XIX o Boa Vista Foot Ball Club.
O time foi o precursor do grande prestigio do Brasil no mundo inteiro. Jamais conheceu uma derrota, era imbatível, uma verdadeira máquina de fazer gols.
O pior resultado da historia do Boa Vista foi um empate em cinco tentos num frio e cinzento Domingo em Londres, o invencível Boa Vista perdia por 4 x 2, faltando cinco minutos para o final do jogo. Foi uma tarde memorável.
Em Brasil humilhava a seus adversários. Destruía-os em campo sem dar-lhes chance alguma. Poucos tinham a coragem de enfrentar o“furação” da Boa Vista. Seus artilheiros eram verdadeiras feras e nas chuteiras carregavam dinamite.
Até o histórico e glorioso Alumni, o time mais antigo da Argentina, foi demolido sem piedade às margens do Rio da Prata.
Após uma turnê ao sul do São Francisco, a torcida baiana ficou com a sensação de que um terremoto havia passado por seus campos de futebol. Isto despertou a ira de um velho Coronel, sogro de respeitado Marechal do primeiro escalão do governo. O time foi acusado de libertinagem; e o clube, de defender idéias abolicionistas.
Oito dos quatorze jogadores que se recusaram jogar na Associação Baiana de Futebol foram condenados a 17 anos de trabalhos forçados. Seis membros da comissão diretiva, incluindo o presidente, foram julgados por crime de conspiração e enforcados na noite do 24 de fevereiro, numa prisão perto do Salvador.
O Boa Vista Foot Ball Clube sofreu a derrota mais sangrenta da historia do futebol brasileiro e caiu vencido definitivamente por um velho Coronel do sertão da Bahia.
A FAMILIA DO MEIO-DIA
Um dos últimos poetas malditos que logrou ingressar na década de 90 é, sem duvida, Erikson Luna, que imortalizou a matemática da cidade com estes versos de porte universal: “As ruas são simétricas / há compasso nos andares / estranhos matemática a cidade / dois mais dois / ninguém é um...”
Morando algum tempo perto do cemitério de Santo Amaro, Erikson foi testemunha do velório de Frederico Durval de Almeida, conceituado vizinho do Bairro da Boa Vista. Homem tido como dos mais veneráveis, correto, e de moral elevadíssima, que criou seus filhos no melhor estilo espartano.
Frederico Durval morreu de enfisema pulmonar, assim do dia para a noite, e os diários do Recife destacaram com pesar seu falecimento.
Perto das quatro da tarde, hora do seu sepultamento, e no meio do constrangimento de sua família, apareceu uma outra família de Frederico Durval de Almeida, a família do “meio-dia”, aquela que ele construía na hora do almoço, pois costumava a sair cedo para seus afazeres de advogado e retornava sempre por volta das vinte horas.
Tamanha foi a indignação da “família oficial” que o mais velho dos filhos deu um murro no queijo do pai, fazendo balançar o caixão, e aos gritos de traidor e safado saíram todos em fileira para nunca mais voltar.
A família do “meio-dia” realizou o enterro.
O MISTERIOS DOS QUADROS DE GOTH
Há mais de meio século os intelectuais da rua da União se perguntavam preocupados: ¿Onde estão os quadros de Goth? Hoje, sessenta anos depois, os quadros de Ivan Goth continuam desaparecidos.
O artista plástico mais notório do Bairro da Boa Vista nasceu num belo casarão rodeado de jasmins e mangueiras. Os vizinhos diziam que ele havia nascido como um pássaro.
Já aos 22 anos, despertava admiração nos meios artísticos, e a “Folha imparcial, Critica e Plástica” destacava, no seu primeiro editorial, “as cores limpas e selvagens do gênio da Boa Vista”.
Certa vez, ele teve vontade de mutilar a própria orelha, porem preferiu, por razão de prudência, cortar uma mecha de cabelo e enviá-la num envelope para Dona Carminha, viúva de um açougueiro, da qual ele estava perdidamente apaixonado.
Seus inimigos políticos asseguravam que o único trabalho artístico realizado por Ivan datava dos tempos de Escola Oliveira, quando o pintor tinha apenas nove anos. Porém, há registros denunciando sua pintura como “luminosa”.
Eurico Durval, conhecido marchand e amigo pessoal de Goth, passou os últimos dez anos de sua vida procurando a obra de Ivan. Galerias de arte, conventos, mosteiros, relicários, esconderijos de colecionadores e tantos outros locais e lugares foram vasculhados por Eurico sem resultado.
Teodorico Gomes Vilar, advogado da família, por razoes profissionais, passou trinta e seis meses na Europa onde dedicava os fins de semana a procurar os quadros misteriosamente desaparecidos, de quem fora o filho ilustre do bairro da Boa Vista.
Ivan Goth tinha sérios problemas de identidade religiosa, crente de que Deus criou o homem, mas aceitou a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies, entrava em profundas depressões. O homem era um marco antigamente, dizia Ivan, e se Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, Deus tem forma de macaco... E cai novamente em outra crise depressiva.
Apesar de tudo isso, os moradores da Boa Vista asseguravam que Ivan nunca deixou de pintar. Ele pintava pássaros, todos os seus quadros eram pássaros. Bebia cachaça e pintava sabias, joões-de-barro, beija-flores e urubus. Era o pintor dos pássaros. Ele era um pássaro. Ele se identificava tanto com os pássaros, que morava como um pássaro, e seus amigos o chamavam ‘’ Ivan dos pássaros ‘’.
Numa tarde de novembro, depois de beber três garrafas de cachaça, Goth entrou em coma hepática no bar em frente à igreja do Rosário.
Os sinos musicalizaram sua morte. Foi uma morte de asas e cores, uma morte bonita, digna, livre... Uma morte como jamais ninguém viu.Foi na realidade, uma morte de pássaro.
Se alguém hoje encontrasse um quadro de Ivan, um desenho, um rascunho, seguramente sua cotação seria em milhões de dólares. Os quadros de Goth são um imenso tesouro escondido em algum lugar do universo. Os caçadores dos quadros de Ivan se espalham pelo mundo inteiro. O mistério dos quadros de Goth e tema para varias gerações. Porem, dona Carminha, a viúva do açougueiro, sabe que ninguém jamais encontrara os quadros de Ivan. Os pássaros saíram das telas e voaram um a um.
Foi algo incrível, metafísico, extraterrestre, sei la, dizia Dona Carminha, enquanto descrevia como Goth ficou alucinado ao ver que seus pássaros ganharam vida e fugiam das molduras.
E algo que não se pode contar, ninguém acreditaria em coisa tão diabólica ou celestial
Nessa mesma tarde, relembra, depois que a ultima de suas criações alcançou a liberdade, Ivan Goth bebeu as derradeiras três garrafas de sua vida e seguiu a trilha de seus pássaros.
O CALVARIO DE MARIA TRINDADE
Diz a lenda que Maria Trindade, dentro da igreja dos ingleses, por intermédio da magia dos duendes da macumba, entrou numa garrafa de aguardente abandonada. Decidiu permanecer ate que os restos mortais do General Abreu e Lima tivessem crista sepultura.A igreja dos ingleses ficava na Rua da Aurora, em frente ao rio Capibaribe, e lá mesmo foi que Maria Trindade conheceu o valente General, que lutou junto a Simon Bolívar na guerra pela independência do Vice-Reinado das Províncias do Rio da Prata. Combateu com bravura na batalha de JunÍn e sonhou com a pátria grande por que lutavam os gaúchos de San Martin. Foi o único oficial brasileiro que teve o orgulho de participar da saga contra o Império Espanhol. Por suas idéias libertarias, o clero proibiu, após sua morte,que o corpo fosse enterrado em território brasileiro.Por isso, Abreu e Lima ate hoje se encontra sobre proteção da igreja Anglicana, no cemitério dos ingleses, na antiga cidade de Nassau.Abreu e Lima também e o único brasileiro que nunca foi anistiado por governo algum e permanece no exílio, embora um município pernambucano, antes de chegar a ilha de Itamaracá, o recorde com seu nome.Maria Trindade, descendente de Zumbi, o guerreiro negro que construiu a nação dos Palmares, tomou o lendário sacrifício de oferecer sua vida pela alma do herói.A igreja dos ingleses foi destruída pelo tempo e a garrafa, com o corpo e o espírito de Maria, encontra-se enterrada junto a tumba do grande capitão, onde foi depositada por um pastor anglicano, na esperança de que os piedosos padres católicos façam divina justiça com Abreu e Lima e assim libertem Maria Trindade de seu secular calvário.
A MORTE DE CHICO ESPINHARA
Fazia três dias que bebia num buteco perto do Teatro Santa Isabel.
Fedia a cachaça, a limão e a tripinha assada. A mesa suja de cinzas de cigarros descobria papeis rugados com as ultimas poesias que Chico Espinhara escrevera em vida.
As 4 da madrugada do quarto dia, caminhou rumo a ponte do rio Capibaribe. A sombra de Arnaldo Tobias, o poeta da liberdade, espreitava-o por dentro do nevoeiro.
O salto foi felino e desapareceu nas águas infectadas pelas fabricas e as usinas da cidade fratricida. Paulo Chaves em sua coluna ‘’ Poliedro ‘’ do diário de Pernambuco noticiou: ‘’Morreu Chico Espinhara, o poeta pessimista’’. A primeira sexta-feira daquele mês, o JC Cultural publicou uma resenha histórica do poeta suicida e elogiou o conteúdo dos textos do ultimo numero do jornal ‘’Litero-Pessimista’’,do qual Chico fora fundador.
Na rua 7 de Setembro, perto da Livro 7, os bardos organizaram uma banca com fim de arrecadar fundos para levantar uma estatua e coloca-la no Beco da Fome, onde Chico e os poetas malditos se reuniam em memoráveis papos líricos e etílicos. Tarefa difícil, pois todas as noites os que administravam a banca compravam, com o arrecadado, cachaça para homenagear a memória de Espinhara. Foram cinco anos de homenagem, todas as noites... Não há poeta no mundo inteiro que haja recebido tanta solidariedade após sua morte.
Finalmente, com verbas publicas conseguidas por iniciativa do escultor Luiz Pessoa, foi esculpida, em refinado bronze, a figura barbada e sombria de Chico Espinhara.
A estatua ficou no meio do Beco, onde todas as madrugadas, em rituais pagãos e eróticos, os bêbados da Boa Vista urinam os pés estáticos do poeta suicida. De qualquer ângulo se pode ler a frase que ele imortalizou em vida: ‘’...para meu povo irresoluto, o véu, a cova e o luto...’’
O concurso literário Chico Espinhara, que começara timidamente organizado pelos poetas do Beco da Fome, hoje extrapolou as fronteiras do Bairro da Boa Vista e tem prestigio internacional. Poetas de todo o mundo participam do certame, e, no mês de entrega dos prêmios uma verdadeira romaria de escritores anônimos e consagrados, jogam, em homenagem póstuma, coroas de flores nas águas fétidas do rio Capibaribe.
Na data do seu nascimento, as comemorações ultrapassam os limites imaginados. Para o calendário da Secretaria de Turismo de Pernambuco, é a segunda festa em importância, depois do carnaval.
Enquanto isso, numa feira perto da Av. Caxanga, detrás de uma banca de verduras, o poeta Chico Espinhara relembra a surpresa dos médicos no dia em que os bombeiros que estavam de plantão no palácio do governo o tiraram do Capibaribe e o levaram ao pronto-socorro.
Nessa época do ano, o rio tem pouca água, mas os profissionais da saúde não entenderam como Chico não morreu envenenado pelo meio litro que tragou.
Era tanta vontade que ele tinha de suicidar-se, e era tão esperado seu suicídio pelos poetas que compartilhavam as noites de poesias e de boêmia, que, quando reapareceu pelos bares do Bairro da Boa Vista, todos seguiram pensando que ainda estava morto, e ele estava tão seguro que está morto, que nem sequer participa de seu concurso anual de poesias.
A TRAICAO DE ARCELINA CESAR
Quando se fala da sinfonia da harmônica de Maria Áurea, sem duvida a recordação se torna doce e saudosa.
Era costumeiro, em meados do século, escutar-se nas noites de verão uma melodia suave e encantadora, que fazia mais prazenteiro o sonho dos vizinhos do Bairro da Boa Vista. As janelas dos velhos casarões da Rua do Progresso se abriam para sentir o cheiro das arvores frondosas e a musica de Maria Áurea. Era uma serenata quase celestial que acabava entrando pela madrugada numa esquina colonial da Rua das Ninfas.
Maria da harmônica tinha os cabelos infinitamente longos e era tão magra que, de longe, parecia um ‘’i’’ com um acento horizontal atravessado no rosto.
Nas noites de lua cheia, os arpejos tornavam mágica a paisagem clara das copas das arvores, que se vestiam de ecos de amor e de paixão. Maria Áurea tinha uma sensibilidade especial, e sua harmônica transmitia os mínimos detalhes, podendo-se perceber ate a doçura de um beijo proibido.
Suas serenatas hoje se recordam com gosto e nostalgia. Seguramente, todos sempre querem voltar a escutar a melodia da Maria da harmônica.
Dizem que foi uma noite sem vento e sem lua que se ouviu pela ultima vez aquela sinfonia de sereia, aquela musica apaixonada que lembrava uma fogueira de corpos e beijos, a mesma noite do casamento de Arcelina César com um comerciante do Rio de Janeiro.
Foi a noite que a harmônica derramou lagrimas de dor, e as notas saiam sofridas e úmidas. Foi um lamento trágico, uma agonia incansável e terrível...
Arcelina César foi morar no Rio de Janeiro, e Maria Áurea enterrou sua harmônica e guardou o amor e sua paixão clandestina dentro de seu coração destruído pela traição.
O VIGIA DA RUA DO SOSSEGO
Diziam os mais velhos que o casarão da Rua do Sossego, perto da Av. Visconde de Suassuna, era da família Fernandes Matos. Na realidade, ninguém sabia direito, nem mesmo seu Biu, o vigia que, há mais de 40 anos, cuidava do casarão e nunca viu se quer uma pessoa entrar nessa construção de fins dos anos de 1700.
Seu Biu recebia os salários através do correio, chegava sempre da Cidade de Porto. Ele passava os dias, as semanas, os anos, no quintal, embaixo de uma secular e frondosa mangueira. Jamais ninguém, nem ele mesmo, entrou no casarão. Foi assim por quase meio século.
Seu Biu passou quase meio século da sua vida nesse trecho da Rua do Sossego, conhecia toda a sua historia e as dos vizinhos. Poderia contar com detalhes a morte do Dr. Argemiro Batista de Oliveira, descrever o amante de sua mulher, saber que quantidades de vestidos tinha Dona Mercedes do Pilar, viúva de um capitão do exercito. Ele sabia em que estava envolvido Toninho, o filho do engenheiro Agostinho dos Santos, e quais eram os prazeres libidinosos de Maria do Carmo, com seu noivo, no porão do sobrado da esquina. Seu Biu tinha mais de 40 anos de observar e observaras pessoas e as coisas, dia e noite...
Seu salário era ridículo. Por não ter assistência medica, dois de seus filhos morreram de tuberculose. Mesmo assim, dava para levar a vida. Ele sabia o motivo do suicídio do genro do Dr. Álvares da Costa e as vezes que chegava bêbado o ex-vereador Jaime Martins. Conhecia a hora exata em que começavam as brigas diária de Dona Sara com Jose Isidoro e a quantia de dinheiro que perdia no jogo o irmão de Agostino doa Santos. Seu Biu era a perfeição do conhecimento, horários de entrada e saídas, ausências,viagens, atrasos... Sabia os dias em que passava o carteiro, o carro do lixo e o vendedor de ostras.
Já no final de sua vida, sentiu o coração bater mais lento, e uma dor cardíaca apunhalou seu peito. Quase arrastando-se, chegou a porta do casarão e abriu-a com dificuldade. Nesse instante, percebeu que era a primeira vez, em mais de 40 anos, que ia entrar na casa. Ninguém jamais o havia feito. A sala mal iluminada pelo sol da tarde era um universo de telhas de aranha, e seus velhos olhos viram, sobre uma ampla mesa. Uma quantidade extraordinária de jóias, pecas de ouro e de prata, que faziam mais de meio século que estavam la. Uma verdadeira fortuna, um valor incalculável.
Seu Biu, que conhecia a vida e o milagre de todo o mundo, começou a chorar. E morreu na hora exata em que Dona Sara e Jose Izidoro começavam a brigar.
O CAVALEIRO DA SOLEDADE

Todos os anos, quando começava a estação das chuvas, vem a memória das comadres as historias do Cavaleiro da Rua da Soledade. Baixo ao som das águas e dos mistérios , relatam fatos acontecidos que escutaram há mais de quarenta anos.
O Cavalheiro da Soledade somente aparecia no inverno, nas chuvas torrenciais de maio. Dizem aqueles que o viram que era magro, alto, de guarda chuva escuro, de terno com colete e chapéu preto.
No meio dos raios e relâmpagos, ele sempre se perdia num ponto misterioso, num lugar não definido da Rua da Soledade. Seu passo era lento e nobilíssimo e parecia furar o aguaceiro com seu olhar profundo...
As janelas se fecharam precipitadas, ao escutar o som que emitiam suas pegadas, e as mocas, para dormirem tranqüilas, faziam um no num lenco de seda que guardavam embaixo do travesseiro.
Muitas historias se teciam em torno de sua figura úmida e sigilosa, mas apenas a noite e a chuva conheciam seu mistério.
Por muitos anos, especulou-se sobre o lugar onde o Cavalheiro desaparecia na Rua da Soledade. Ninguém chegou a uma conclusão sobre o ponto exato ele se transformava em silencio.
O ano em que, nas galerias do subterrâneas do Bairro da Boa Vista, foi encontrado o esqueleto humano, junto a um guarda-chuva roído pelos ratos, o inverno demorou tanto que simplesmente não houve...
As plantas secaram, e as poucas flores que nasciam tinham suas pétalas desbotadas. O racionamento de água potável foi rigoroso. A grama era amarela, e as paredes das casas rachavam, castigadas impiedosamente pelo sol.
O leito do Capibaribe era um pequeno fio de água, e os pássaros morriam de sede na fonte seca da praça da Rua Jiriquiti.
As mocas trocaram o medo pela saudade e esperavam anciosas, acariciando os lenços de seda, ouvir um som ilustre dos passos do Cavalheiro da Soledade.
NAS LISTAS OFICIAIS NADA CONSTAO colégio Prytaneu era um dos mais tradicionais estabelecimentos de ensino particular no inicio do século. Situado na Rua Formosa e dirigido por dona Cleotilde de Oliveira, o Prytaneu era o preferido das famílias nobres de Recife, que confiavam suas filhas aos prestígios dos mais dedicados mestres da Cidade.
Ali estudaram margarida Alves de Couto e Silva, Conchita Maciel, Inês Costa Cavalcanti, as filhas gêmeas do desembargador Alexandre Gomes Magalhães, Nena Romero Kats e outras mocas distintas que os jornalistas badalavam em suas colunas sociais.
Por causa de maxabomba que, com seu barulho ensurdecedor, perturbava a tranqüilidade exigida para um aprendizado eficiente, a mãe de Valdemar de Oliveira Lima transferiu o colégio para a Rua do Sebo.
Foi justamente por aquelas esquinas que os combates foram mais acirados. Na metade dos anos 30, Gregório Bezerra, de quem os cantadores populares diziam: “ Mas existe nesta terra/ muito homem de valor/ que e bravo sem matar gente/ mas não teme matador/ que gosta de sua gente/ e que luta em seu favor/ como Gregório Bezerra/ feito de ferro e de flor”, liderou o que hoje se conhece como a “intentona comunista”.
Naquela tarde, as balas de fuzil perfuravam tudo o que encontrasse no caminho, paredes, muros, postes, carne, braços e peitos. As moças do colégio Prytaneu passaram horas deitado no chão escutando o assobio dos projeteis perto de suas cabeças. Anita Paes Queiroz, que, há dias, tomava chá de ervas abortivas como única saída para seu drama,entrou em pânico,começou a suar frio e fedorento. O medo havia paralisado suas pernas. Mesmo assim arrastou-se até o banheiro,sentada na bacia,teve violento ataque de convulsões,e só quando suas mãos puxaram um pedaço de placenta,deu-se conta de que havia abortado um feto de 4 meses. As rádios noticiavam que os comunistas se haviam apoderado do governo do Rio Grande do Norte. A mobilização das tropas era semelhante a revolução de 30. As classes dominantes jogavam todo seu poder econômico e político para preservar a cultura “ocidental” e cristã. Dezenas de feridos eram atendidos nas ruas, casas de famílias e hospitais. As prisões se enchiam de militantes bolcheviques e, nos cemitérios, as covas se abriram para os mortos da intentona.
Uma semana depois, as autoridades davam a conhecer os números oficiais das vitimas do conflito. Porém, nas listas divulgadas, não constava um feto de 4 meses, de cor branca e do sexo feminino, achado numa caixa de lixo frente ao colégio Prytaneu.
DO LIVRO A GUERRA DA BOA VISTA E OUTRAS HISTORIAS DE HÉCTOR PELLIZZI
Editora Nova Idéia – 1994 - Piauí